An image with the following quote Nesta quebrada de montanha, donde o mar

Parece manso como em recôncavo de angra,

Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra

Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!


Entregue à sugestão evocadora do ermo,

Em pranto rememoro o teu lento martírio

Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,

A alma que se transia atada ao corpo enfermo.


Relembro o rosto magro, onde a morte deixou

Uma expressão como que atônita de espanto.

(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto

Em teus olhos já meio inânimes passou?)


Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...

Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...

A duas gerações passara já teu sangue,

— Eras avó —, e morta eras uma menina.


No silêncio daquela noite funeral

Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.

Mas não posso pensar em ti sem que me tome

Todo a recordação medonha de teu mal!


Tu, cujo coração era cheio de medos

— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —

Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,

É que te sufocou com implacáveis dedos.


Agora se me despedaça o coração

A cada pormenor, e o revivo cem vezes,

E choro neste instante o pranto de três meses

(Durante os quais sorri para tua ilusão!),


Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,

As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,

Voa, diluindo-se no longe das distâncias,

A prece vesperal em fundas badaladas!

Nesta quebrada de montanha, donde o mar Parece manso como em recôncavo de angra, Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!...

— Manuel Bandeira

Elegia para Minha Mãe

Nesta quebrada de montanha, donde o mar Parece manso como em recôncavo de angra, Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar! Entregue à sugestão evocadora do ermo, Em pranto rememoro o teu lento martírio Até quando exalaste, à ardente luz de um círio, A alma que se transia atada ao corpo enfermo. Relembro o rosto magro, onde a morte deixou Uma expressão como que atônita de espanto. (Que imagem de tão grave e prestigioso encanto Em teus olhos já meio inânimes passou?) Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina... Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue... A duas gerações passara já teu sangue, — Eras avó —, e morta eras uma menina. No silêncio daquela noite funeral Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome. Mas não posso pensar em ti sem que me tome Todo a recordação medonha de teu mal! Tu, cujo coração era cheio de medos — Temias os trovões, o telegrama, o escuro — Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro, É que te sufocou com implacáveis dedos. Agora se me despedaça o coração A cada pormenor, e o revivo cem vezes, E choro neste instante o pranto de três meses (Durante os quais sorri para tua ilusão!), Enquanto que a buscar as solitárias ânsias, As mágoas sem consolo, as vontades quebradas, Voa, diluindo-se no longe das distâncias, A prece vesperal em fundas badaladas!
Mil-Frases Mil-Frases · 2 years ago
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Manuel Bandeira
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A poesia de Bande...
"Elegia para Minha Mãe" é um poema emocionante de Manuel Bandeira, onde o poeta expressa sua dor e tristeza pela perda de sua mãe. Através de imagens poéticas e memórias vívidas, o poema retrata o sofrimento do poeta ao testemunhar o lento martírio de sua