“ODE MORTAL Tu, Caeiro meu mestre, qualquer que seja o traje Com que vestes agora, distante ou próxima, a essência Da tua alma universal localizada, Do teu corpo divino intelectual...
— Álvaro de Campos
ODE MORTAL
ODE MORTAL
Tu, Caeiro meu mestre, qualquer que seja o traje
Com que vestes agora, distante ou próxima, a essência
Da tua alma universal localizada,
Do teu corpo divino intelectual...
Viste com a tua cegueira perfeita, sobre o não ver...
Porque o que viste com os teus dedos mortais e admiráveis
Foi a face sensível e não a face física das coisas
Foi a realidade, e não o real.
Porque a verdade que é tudo é só a verdade que há em tudo,
E a verdade que há em tudo é a verdade que o mostra!
Ah, sem cansaço antecipado da marcha
Nem cadáver velado pelo próprio cadáver na alma
Nas noites em que o vento assobie no mundo deserto
E a casa onde dorme é um túmulo de tudo,
Nem o sentir-se morto impossivelmente sentindo-se cadáver,
Nem a consciência de não ter consciência dentro de tábuas e chumbo,
Nem nada...
Olho o céu de dia, e olho o céu de noite –
E este universo esférico e côncavo
Vejo-o como um espelho dentro do qual vivamos,
Limitado porque é a parte de dentro,
Mas com estrelas e sol rasgando o vidro
Para fora, para o convexo que é infinito.
Gritai de alegria, gritai comigo, gritai,
Coisas cheias, sobre-cheias,
Que sois minha vida turbilhonante...
Eu vou sair da esfera oca
Não por uma estrela, mas pela luz de uma estrela...
Vou para o espaço real...
Que o espaço, cá dentro é espaço que está fechado
E só parece infinito por estar fechado muito longe...
Muito longe em pensá-lo...
A minha mão está já no puxador-luz.
Vou abrir com um gesto largo,
Com um gesto autêntico e mágico
A Porta para o Convexo,
A janela para o Informe,
A Razão para o maravilhoso definitivo.
Vou poder circumnavegar por fora este dentro
Que tem as estrelas no fim, vou ter o céu
Por baixo do sobrado curvo –
Tecto da cave das coisas reais,
Da abóbada nocturna da morte e da vida...
Vou partir para FORA,
Para o Arredor Infinito,
Para a circunferência exterior, metafísica,
Para a luz por fora da noite,
Para a Vida-morte por fora da Morte-Vida.
E aí, no Verdadeiro,
Tirarei os astros e a vida da algibeira como um presente ao Certo,
Lerei a Vida de novo, como uma carta guardada
E então, com luz melhor, perceberei a letra e saberei.
O cais está cheio de gente a ver-me partir.
Mas o cais é à minha volta e eu encho o navio.
E o mar é cama, caixão, sepultura...
E eu não sei o que sou pois já não estou ali...
E eu, que cantei
A civilização moderna, aliás igual às antigas,
As coisas do meu tempo só porque esse tempo foi meu,
As máquinas, os motores,
Vou em diagonal a tudo para cima.
Passo pelos interstícios de tudo,
E como um pó sem ser rompo o invólucro
E partirei, globe-trotter do Divino,
Quantas vezes, quem sabe?, regressando ao mesmo ponto.
(Quem anda de noite que sabe do andar e da noite?),
Levarei na sacola o conjunto do visto –
O céu de estrelas, e o sol em todos os modos,
E todas as estações e as suas milhares de cores,
E os campos, e as serras, e as terras que cessam em praias,
E o mar para além, e o para além do mar que há além.
E de repente se abrirá a Última Porta das coisas
E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim.
E será o Inesperado que eu esperava
O Desconhecido que eu conheci sempre –
O único que eu sempre conheci,
(...)
12/01/1927
0
Curtida
0
Comentário
0
Partilhas
Comentário
Seja o primeiro a comentar.
Este poema de Álvaro de Campos, intitulado "Ode Mortal", é uma reflexão profunda sobre a busca pela verdade e pela transcendência. O eu lírico expressa o desejo de sair do espaço limitado e fechado em que vive, em direção ao espaço infinito e metafísico.
Populares
Related posts
The light that guides me is much stronger than the e...
Who said that to fly we need wings?
just one motorc...
Life is short, chase your dreams
When the power of love overcomes the love of power t...
Do not be afraid of change. Good things are gone, so...
Cease negative mental chattering. If you think a thi...
We would accomplish many more things if we did not t...
I never think about my best interests. I think about...
Hope lingers in all the tears.
Love is an untamed force. When we try to control it,...
There are so many things that we wish we had done ye...
You only have one life, so take charge and strive to...
We should judge a man more by his questions than by ...