An image with the following quote Sei de uma criatura antiga e formidável,

Que a si mesma devora os membros e as entranhas,

Com a sofreguidão da fome insaciável.


Habita juntamente os vales e as montanhas;

E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,

Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.


Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.

Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,

Parece uma expansão de amor e de egoísmo.


Friamente contempla o desespero e o gozo,

Gosta do colibri, como gosta do verme,

E cinge ao coração o belo e o monstruoso.


Para ela o chacal é, como a rola, inerme;

E caminha na terra imperturbável, como

Pelo vasto areal um vasto paquiderme.


Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo

Vem a folha, que lento e lento se desdobra,

Depois a flor, depois o suspirado pomo.


Pois esta criatura está em toda a obra;

Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;

E é nesse destruir que as forças dobra.


Ama de igual amor o poluto e o impoluto;

Começa e recomeça uma perpétua lida,

E sorrindo obedece ao divino estatuto.

Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

Sei de uma criatura antiga e formidável, Que a si mesma devora os membros e as entranhas, Com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; E no...

— Joaquim Maria Machado de Assis

Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável, Que a si mesma devora os membros e as entranhas, Com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; E no mar, que se rasga, à maneira de abismo, Espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. Cada olhar que despede, acerbo e mavioso, Parece uma expansão de amor e de egoísmo. Friamente contempla o desespero e o gozo, Gosta do colibri, como gosta do verme, E cinge ao coração o belo e o monstruoso. Para ela o chacal é, como a rola, inerme; E caminha na terra imperturbável, como Pelo vasto areal um vasto paquiderme. Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo Vem a folha, que lento e lento se desdobra, Depois a flor, depois o suspirado pomo. Pois esta criatura está em toda a obra; Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto; E é nesse destruir que as forças dobra. Ama de igual amor o poluto e o impoluto; Começa e recomeça uma perpétua lida, E sorrindo obedece ao divino estatuto. Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
Mil-Frases Mil-Frases · 2 years ago
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Joaquim Maria Machado de Assis
72 posts
Este mestre das p...
"Uma Criatura" é um poema de Joaquim Maria Machado de Assis que retrata uma criatura antiga e formidável que devora a si mesma, com uma fome insaciável. Ela habita tanto os vales e montanhas quanto o mar, revelando um obscuro despotismo em sua fronte. O p