An image with the following quote Eras pálida. E os cabelos,

Aéreos, soltos novelos,

Sobre as espáduas caíam.
..

Os olhos meio-cerrados

De volúpia e de ternura

Entre lágrimas luziam.
..

E os braços entrelaçados,

Como cingindo a ventura,

Ao teu seio me cingiram.
..


Depois, naquele delírio,

Suave, doce martírio

De pouquíssimos instantes

Os teus lábios sequiosos,

Frios trêmulos, trocavam

Os beijos mais delirantes,

E no supremo dos gozos

Ante os anjos se casavam

Nossas almas palpitantes.
..

Depois.
.. depois a verdade,

A fria realidade,

A solidão, a tristeza;

Daquele sonho desperto,

Olhei.
.. silêncio de morte

Respirava a natureza —

Era a terra, era o deserto,

Fora-se o doce transporte,

Restava a fria certeza.


Desfizera-se a mentira:

Tudo aos meus olhos fugira;

Tu e o teu olhar ardente,

Lábios trêmulos e frios,

O abraço longo e apertado,

O beijo doce e veemente;

Restavam meus desvarios,

E o incessante cuidado,

E a fantasia doente.


E agora te vejo. E fria

Tão outra estás da que eu via

Naquele sonho encantado!

És outra, calma, discreta,

Com o olhar indiferente,

Tão outro do olhar sonhado,

Que a minha alma de poeta

Não vê se a imagem presente

Foi a imagem do passado.


Foi, sim, mas visão apenas;

Daquelas visões amenas

Que à mente dos infelizes

Descem vivas e animadas,

Cheias de luz e esperança

E de celestes matizes:

Mas, apenas dissipadas,

Fica uma leve lembrança,

Não ficam outras raízes.


Inda assim, embora sonho,

Mas sonho doce e risonho,

Desse-me Deus que fingida

Tivesse aquela ventura

Noite por noite, hora a hora,

No que me resta de vida,

Que, já livre da amargura,

Alma, que em dores me chora,

Chorara de agradecida!

Eras pálida. E os cabelos, Aéreos, soltos novelos, Sobre as espáduas caíam. .. Os olhos meio-cerrados De volúpia e de ternura Entre lágrimas luziam. .. E os braços entrelaçad...

— Joaquim Maria Machado de Assis

Visio

Eras pálida. E os cabelos, Aéreos, soltos novelos, Sobre as espáduas caíam. .. Os olhos meio-cerrados De volúpia e de ternura Entre lágrimas luziam. .. E os braços entrelaçados, Como cingindo a ventura, Ao teu seio me cingiram. .. Depois, naquele delírio, Suave, doce martírio De pouquíssimos instantes Os teus lábios sequiosos, Frios trêmulos, trocavam Os beijos mais delirantes, E no supremo dos gozos Ante os anjos se casavam Nossas almas palpitantes. .. Depois. .. depois a verdade, A fria realidade, A solidão, a tristeza; Daquele sonho desperto, Olhei. .. silêncio de morte Respirava a natureza — Era a terra, era o deserto, Fora-se o doce transporte, Restava a fria certeza. Desfizera-se a mentira: Tudo aos meus olhos fugira; Tu e o teu olhar ardente, Lábios trêmulos e frios, O abraço longo e apertado, O beijo doce e veemente; Restavam meus desvarios, E o incessante cuidado, E a fantasia doente. E agora te vejo. E fria Tão outra estás da que eu via Naquele sonho encantado! És outra, calma, discreta, Com o olhar indiferente, Tão outro do olhar sonhado, Que a minha alma de poeta Não vê se a imagem presente Foi a imagem do passado. Foi, sim, mas visão apenas; Daquelas visões amenas Que à mente dos infelizes Descem vivas e animadas, Cheias de luz e esperança E de celestes matizes: Mas, apenas dissipadas, Fica uma leve lembrança, Não ficam outras raízes. Inda assim, embora sonho, Mas sonho doce e risonho, Desse-me Deus que fingida Tivesse aquela ventura Noite por noite, hora a hora, No que me resta de vida, Que, já livre da amargura, Alma, que em dores me chora, Chorara de agradecida!
Mil-Frases Mil-Frases · 2 years ago
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Joaquim Maria Machado de Assis
72 posts
Este mestre das p...
"Visio" é um poema de Joaquim Maria Machado de Assis que retrata a experiência de um sonho amoroso que se desvanece ao despertar para a realidade. O poema descreve a intensidade do encontro amoroso, com imagens de paixão e ternura, mas logo revela a trist