An image with the following quote O crepúsculo cai, manso como uma bênção.

Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...

As grandes mãos da sombra evangélicas pensam

As feridas que a vida abriu em cada peito.


O outono amarelece e despoja os lariços.

Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar

O terror augural de encantos e feitiços.

As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.


Os pinheiros porém viçam, e serão breve

Todo o verde que a vista espairecendo vejas,

Mais negros sobre a alvura inânime da neve,

Altos e espirituais como flechas de igrejas.


Um sino plange. A sua voz ritma o murmáúrio

Do rio, e isso parece a voz da solidão.

E essa voz enche o vale... o horizonte purpúreo...

Consoladora como um divino perdão.


O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha

Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,

Flocos, que a luz do poente extática semelha

A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.


A sombra casa os sons numa grave harmonia.

E tamanha esperança e uma tão grande paz

Avultam do clarão que cinge a serrania,

Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.


Clavadel, 1913

O crepúsculo cai, manso como uma bênção. Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito... As grandes mãos da sombra evangélicas pensam As feridas que a vida abriu em cada peito...

— Manuel Bandeira

Crepúsculo de Outono

O crepúsculo cai, manso como uma bênção. Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito... As grandes mãos da sombra evangélicas pensam As feridas que a vida abriu em cada peito. O outono amarelece e despoja os lariços. Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar O terror augural de encantos e feitiços. As flores morrem. Toda a relva entra a murchar. Os pinheiros porém viçam, e serão breve Todo o verde que a vista espairecendo vejas, Mais negros sobre a alvura inânime da neve, Altos e espirituais como flechas de igrejas. Um sino plange. A sua voz ritma o murmáúrio Do rio, e isso parece a voz da solidão. E essa voz enche o vale... o horizonte purpúreo... Consoladora como um divino perdão. O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos, Flocos, que a luz do poente extática semelha A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos. A sombra casa os sons numa grave harmonia. E tamanha esperança e uma tão grande paz Avultam do clarão que cinge a serrania, Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás. Clavadel, 1913
Mil-Frases Mil-Frases · hace 2 años
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Manuel Bandeira
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A poesia de Bande...
"Crepúsculo de Outono" é um poema de Manuel Bandeira que retrata a chegada do outono e a transição da natureza para a estação mais fria. O poema descreve a melancolia do crepúsculo, a morte das flores e a iminência do inverno. Através de imagens sombrias