Poema
An image with the following quote Oh o maior horror de terem cessado os clarins
Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento
Nesta profunda palidez [...] dos que mataram?
Quem é que vem? O que nos vai dar
Que criança a soluçar em calma noite intranquila,
Meu irmão? A irmã de quem? Ó anos de infância
Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes
E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!...

Choque de cavaleiros onde?
Artilharia, onde, onde, onde?
Ó dor da [indecisão?] com agitações inexplicáveis à superfície de águas estagnadas...
Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens...
Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos...

(Lágrimas nas tuas mãos
E plácido o teu olhar...
E tu, amor, és uma realidade também...
Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer...
E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria
E a incerteza e o terror
Coisas, meras coisas, [...]
Lágrimas nas tuas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha
E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas
E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito...)

A guerra. a guerra, a guerra realmente.
Excessivamente aqui, horror, a guerra real...
Com a sua realidade de gente que vive realmente,
Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real
E as suas consequências, não coisas contadas em livros
Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,
E o sol também real sobre a terra também real
Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo!

Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações,
E os sons florescem nos gritos misteriosamente...
A gaiola do canário à tua janela, Maria,
E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque...

O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste,
A morte... E o contrário disto tudo é a vida...
Dói-me a alma e não compreendo...
Custa-me a acreditar no que existe...
Pálido e perturbado. não me mexo e sofro.

Oh o maior horror de terem cessado os clarins Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento Nesta profunda palidez [...] dos que mataram? Quem é que vem? O que nos vai dar Qu...

— Álvaro de Campos

Oh o maior horror de terem cessado os clarins

Oh o maior horror de terem cessado os clarins Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento Nesta profunda palidez [...] dos que mataram? Quem é que vem? O que nos vai dar Que criança a soluçar em calma noite intranquila, Meu irmão? A irmã de quem? Ó anos de infância Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!... Choque de cavaleiros onde? Artilharia, onde, onde, onde? Ó dor da [indecisão?] com agitações inexplicáveis à superfície de águas estagnadas... Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens... Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos... (Lágrimas nas tuas mãos E plácido o teu olhar... E tu, amor, és uma realidade também... Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer... E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria E a incerteza e o terror Coisas, meras coisas, [...] Lágrimas nas tuas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito...) A guerra. a guerra, a guerra realmente. Excessivamente aqui, horror, a guerra real... Com a sua realidade de gente que vive realmente, Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real E as suas consequências, não coisas contadas em livros Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade, E o sol também real sobre a terra também real Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo! Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações, E os sons florescem nos gritos misteriosamente... A gaiola do canário à tua janela, Maria, E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque... O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste, A morte... E o contrário disto tudo é a vida... Dói-me a alma e não compreendo... Custa-me a acreditar no que existe... Pálido e perturbado. não me mexo e sofro.
Mil-Frases Mil-Frases · hace 3 años
0 Curtida
0 Comentário
0 Partilhas

Comentário

Seja o primeiro a comentar.
Álvaro de Campos
324 posts
O Poeta Álvaro de...
Este poema de Álvaro de Campos, intitulado "Oh o maior horror de terem cessado os clarins", retrata a angústia e o horror da guerra. O poeta expressa a sua perplexidade diante da violência e da destruição causadas pela guerra, questionando a substituição