Poema
Une image avec la citation suivante Um touro, não amestrado

No exercício de carreiro,

Num falso passo que deu

Pôs o carro no lameiro.


Conhecendo esse embaraço,

Procurou sair de modo,

Que ao menos salvasse a vida,

Visto o carro estar no lodo.


Alguns animais, passando

No desastroso lugar,

Tentaram, mas não puderam

Do charco o carro tirar.


Até que um burro já velho,

Cheio de louca vaidade,

Cuidou ser esse o momento

De ganhar celebridade.


— A que vás lá? — Disse um desses

Que pastavam por aí:

Deixa vir quem disso entenda;

Que isso não é para ti. —


"Tu falas antes de tempo;

Disse o burro ao que o arguia:

Vou mostrar-te o quanto posso;

Muito alcança quem porfia."


Vejam só o que é ser burro

Por instinto e natureza!

Não mediu as suas forças,

Nem viu do carro a grandeza.


Zurrando, e dando patadas,

Foi meter-se no atoleiro;

Entre os varais colocou-se,

E o pescoço pôs no apeiro.


Mas para fazer tais cousas

Foi necessário agachar-se;

Atolou-se até o ventre

Quando tentou levantar-se.


Como o terreno era fofo,

Tendo já mil voltas dado,

Tentou safar-se do jugo,

E o carro deitou de lado.


O pobre burro entre as varas

Virou de pernas para o ar;

Todo de lama coberto

Começou a espernear.


Isto aos burros acontece,

Que se esquecem do que são

E se não por nós responda

A geral opinião.


Quantos o carro do Estado

Querem guiar mui lampeiros,

E por trancos e barrancos,

Dão com ele em atoleiros?



Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.


In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194

Um touro, não amestrado No exercício de carreiro, Num falso passo que deu Pôs o carro no lameiro. Conhecendo esse embaraço, Procurou sair de modo, Que ao menos salvasse a vi...

— José Gonçalves de Magalhães

Apólogo: O Carro e o Burro

Um touro, não amestrado No exercício de carreiro, Num falso passo que deu Pôs o carro no lameiro. Conhecendo esse embaraço, Procurou sair de modo, Que ao menos salvasse a vida, Visto o carro estar no lodo. Alguns animais, passando No desastroso lugar, Tentaram, mas não puderam Do charco o carro tirar. Até que um burro já velho, Cheio de louca vaidade, Cuidou ser esse o momento De ganhar celebridade. — A que vás lá? — Disse um desses Que pastavam por aí: Deixa vir quem disso entenda; Que isso não é para ti. — "Tu falas antes de tempo; Disse o burro ao que o arguia: Vou mostrar-te o quanto posso; Muito alcança quem porfia." Vejam só o que é ser burro Por instinto e natureza! Não mediu as suas forças, Nem viu do carro a grandeza. Zurrando, e dando patadas, Foi meter-se no atoleiro; Entre os varais colocou-se, E o pescoço pôs no apeiro. Mas para fazer tais cousas Foi necessário agachar-se; Atolou-se até o ventre Quando tentou levantar-se. Como o terreno era fofo, Tendo já mil voltas dado, Tentou safar-se do jugo, E o carro deitou de lado. O pobre burro entre as varas Virou de pernas para o ar; Todo de lama coberto Começou a espernear. Isto aos burros acontece, Que se esquecem do que são E se não por nós responda A geral opinião. Quantos o carro do Estado Querem guiar mui lampeiros, E por trancos e barrancos, Dão com ele em atoleiros? Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias. In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
Mil-Frases Mil-Frases · il y a 2 ans
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Este poema de José Gonçalves de Magalhães, intitulado "Apólogo: O Carro e o Burro", conta a história de um burro que, movido pela vaidade, decide tentar tirar um carro do lodo. No entanto, acaba se atolando ainda mais e virando o carro de pernas para o ar