Poema
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Cheguei finalmente à vila da minha infância.
Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.
(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado).
Tudo é velho onde fui novo.
Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios —
Um automóvel que nunca vi (não os havia antes)
Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta.
Tudo é velho onde fui novo.
Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.
A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.
Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu.
Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo —
É  aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?].
O que conquistei? Nada.
Nada, aliás, tenho a valer conquistado.
Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala...
De repente avanço seguro, resolutamente.
Passou roda a minha hesitação
Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira.
(Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada)
Sou forasteiro tourist, transeunte.
E claro: é isso que sou.
Até em mim, meu Deus, até em mim.

NOTAS SOBRE TAVIRA Cheguei finalmente à vila da minha infância. Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei. (Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado). Tudo é...

— Álvaro de Campos

NOTAS SOBRE TAVIRA

NOTAS SOBRE TAVIRA Cheguei finalmente à vila da minha infância. Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei. (Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado). Tudo é velho onde fui novo. Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios — Um automóvel que nunca vi (não os havia antes) Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta. Tudo é velho onde fui novo. Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto. A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo. Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu. Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo — É aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?]. O que conquistei? Nada. Nada, aliás, tenho a valer conquistado. Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala... De repente avanço seguro, resolutamente. Passou roda a minha hesitação Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira. (Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada) Sou forasteiro tourist, transeunte. E claro: é isso que sou. Até em mim, meu Deus, até em mim.
Mil-Frases Mil-Frases · il y a 3 ans
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Álvaro de Campos
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O Poeta Álvaro de...
"NOTAS SOBRE TAVIRA" é um poema de Álvaro de Campos que retrata a experiência do poeta ao regressar à vila da sua infância. O poema transmite uma sensação de nostalgia e reflexão sobre o passado, contrastando com o presente. O eu lírico observa as mudança