Lembranças, que lembrais meu bem passado, Pera que sinta mais o mal presente, Deixai-me, se quereis, viver contente, Não me deixeis morrer em tal estado.
Mas se também de tudo está ordenado Viver, como se vê, tão descontente, Venha, se vier, o bem por acidente, E dê a morte fim a meu cuidado.
Que muito melhor é perder a vida, Perdendo-se as lembranças da memória, Pois fazem tanto dano ao pensamento.
Assim que nada perde quem perdida A esperança traz de sua glória, Se esta vida há-de ser sempre em tormento.
Luís Vaz de Camões