Uma imagem com a seguinte frase Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,


Berra o sapo-boi:

— “Meu pai foi à guerra!”

— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foil!?.


O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: — “Meu cancioneiro

É bem martelado.


Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.


O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.


Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A formas a forma.


Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia

Mas há artes poéticas...”


Urra o sapo-boi:

— “Meu pai foi rei” — “Foi!”

— “Não foi!” — “Foi” —*“Não foi!”.


Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

— “A grande arte é como

Lavor de joalheiro.


Ou bem de estatuário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo.”


Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas:

— “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabel”.


Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Verte a sombra imensa;


Lá, fugido ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é


Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo cururu

Da beira do rio...


1918

Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: — “Meu pai foi à guerra!” — “Não foi!” — “Foi!” — “Não...

— Manuel Bandeira

Os Sapos

Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: — “Meu pai foi à guerra!” — “Não foi!” — “Foi!” — “Não foil!?. O sapo-tanoeiro, Parnasiano aguado, Diz: — “Meu cancioneiro É bem martelado. Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos. O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio. Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A formas a forma. Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia Mas há artes poéticas...” Urra o sapo-boi: — “Meu pai foi rei” — “Foi!” — “Não foi!” — “Foi” —*“Não foi!”. Brada em um assomo O sapo-tanoeiro: — “A grande arte é como Lavor de joalheiro. Ou bem de estatuário. Tudo quanto é belo, Tudo quanto é vário, Canta no martelo.” Outros, sapos-pipas (Um mal em si cabe), Falam pelas tripas: — “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabel”. Longe dessa grita, Lá onde mais densa A noite infinita Verte a sombra imensa; Lá, fugido ao mundo, Sem glória, sem fé, No perau profundo E solitário, é Que soluças tu, Transido de frio, Sapo cururu Da beira do rio... 1918
Mil-Frases Mil-Frases · há 2 anos
0 Curtida
0 Comentário
0 Partilhas

Comentário

Seja o primeiro a comentar.
Manuel Bandeira
439 posts
A poesia de Bande...
"Os Sapos" é um poema de Manuel Bandeira que retrata a figura dos sapos de forma satírica. O poema faz uma crítica à poesia parnasiana, destacando a falta de originalidade e a rigidez das formas poéticas. Através de diálogos entre os sapos, o poeta ironiz

Poemas relacionados