Uma imagem com a seguinte frase Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.

Íamos, por entre a turba, com solenidade,

Bem conscientes do nosso ar lúgubre

Tão contrastado pelo sentimento de felicidade

Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo

Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...

Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!

E a impressão em meu sonho era que se estávamos

Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,

— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!


Era terça-feira gorda. A multidão inumerável

Burburinhava. Entre clangores de fanfarra

Passavam préstitos apoteóticos.

Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.


Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,

De peitos enormes — Vênus para caixeiros.

Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.

A turba, ávida de promiscuidade,

Acotovelava-se com algazarra,

Aclamava-as com alarido

E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.


Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,

O ar lúgubre, negros, negros...

Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!

Nem a alegria estava ali, fora de nós.

A alegria estava em nós.

Era dentro de nós que estava a alegria,

— A profunda, a silenciosa alegria...

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras. Íamos, por entre a turba, com solenidade, Bem conscientes do nosso ar lúgubre Tão contrastado...

— Manuel Bandeira

Sonho de Uma Terça-feira Gorda

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras. Íamos, por entre a turba, com solenidade, Bem conscientes do nosso ar lúgubre Tão contrastado pelo sentimento de felicidade Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo... Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas! E a impressão em meu sonho era que se estávamos Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro, — Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso! Era terça-feira gorda. A multidão inumerável Burburinhava. Entre clangores de fanfarra Passavam préstitos apoteóticos. Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas. Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida, De peitos enormes — Vênus para caixeiros. Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas. A turba, ávida de promiscuidade, Acotovelava-se com algazarra, Aclamava-as com alarido E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores. Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade, O ar lúgubre, negros, negros... Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso! Nem a alegria estava ali, fora de nós. A alegria estava em nós. Era dentro de nós que estava a alegria, — A profunda, a silenciosa alegria...
Mil-Frases Mil-Frases · há 2 anos
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Manuel Bandeira
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A poesia de Bande...
"Sonho de Uma Terça-feira Gorda" é um poema de Manuel Bandeira que retrata uma cena de carnaval, onde o eu lírico e seu companheiro estão vestidos de preto, com máscaras negras, contrastando com a alegria e a multidão colorida ao seu redor. Apesar da apar

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