Uma imagem com a seguinte frase Clama uma voz amiga: — “Aí tem o Ceará.”

E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada,

Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada.

A bordo a faina avulta e toda a gente já


Desce. Uma moça ri, quebrando o panamá.

— “Perdi a mala!” um diz de cara acabrunhada.

Sobre as águas, arfando, uma breve jangada

Passa. Tão frágil! Deus a leve, onde ela vá.


Esmalta ao fundo a costa a verdura de um parque.

E enquanto a grita aumenta em berros e assobios

Rudes, na confusão brutal do desembarque:


Fitando a vastidão magnífica do mar,

Que ressalta e reluz: — “Verdes mares bravios...”

Cita um sujeito que jamais leu Alencar.


1908

A ROSA

À vista incerta,

Os ombros langues,

Pierrot aperta

Às mãos exangues

De encontro ao peito.


Alguma cousa

O punge ali

Que ele não ousa

Lançar de si,

O pobre doido!


Uma sombria

Rosa escarlata

Em agonia

Faz que lhe bata

O coração...


Sangrenta rosa

Que evoca a louca,

A voluptuosa,

Volúvel boca

De sua amada...


Ah, com que mágoa,

Com que desgosto

Dois fios de água

Lavam-lhe o rosto

De faces lívidas!


Da veste branca

À larga túnica

Por fim arranca

A rosa púnica

Em um soluço.


E parecia,

Jogando ao chão

A flor sombria,

Que o coração

Ele arrancara!...

Clama uma voz amiga: — “Aí tem o Ceará.” E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada, Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada. A bordo a faina avulta e toda a gente já...

— Manuel Bandeira

Verdes Mares

Clama uma voz amiga: — “Aí tem o Ceará.” E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada, Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada. A bordo a faina avulta e toda a gente já Desce. Uma moça ri, quebrando o panamá. — “Perdi a mala!” um diz de cara acabrunhada. Sobre as águas, arfando, uma breve jangada Passa. Tão frágil! Deus a leve, onde ela vá. Esmalta ao fundo a costa a verdura de um parque. E enquanto a grita aumenta em berros e assobios Rudes, na confusão brutal do desembarque: Fitando a vastidão magnífica do mar, Que ressalta e reluz: — “Verdes mares bravios...” Cita um sujeito que jamais leu Alencar. 1908 A ROSA À vista incerta, Os ombros langues, Pierrot aperta Às mãos exangues De encontro ao peito. Alguma cousa O punge ali Que ele não ousa Lançar de si, O pobre doido! Uma sombria Rosa escarlata Em agonia Faz que lhe bata O coração... Sangrenta rosa Que evoca a louca, A voluptuosa, Volúvel boca De sua amada... Ah, com que mágoa, Com que desgosto Dois fios de água Lavam-lhe o rosto De faces lívidas! Da veste branca À larga túnica Por fim arranca A rosa púnica Em um soluço. E parecia, Jogando ao chão A flor sombria, Que o coração Ele arrancara!...
Mil-Frases Mil-Frases · há 2 anos
0 Curtida
0 Comentário
0 Partilhas

Comentário

Seja o primeiro a comentar.
Manuel Bandeira
439 posts
A poesia de Bande...
"Verdes Mares" é um poema de Manuel Bandeira que retrata a chegada a uma cidade costeira, provavelmente no Ceará. O poema descreve a agitação do desembarque, com pessoas descendo do navio e uma moça perdendo sua mala. Bandeira também destaca a beleza do m

Poemas relacionados