Uma imagem com a seguinte frase POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA

I

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

II

Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!

POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA I Dá-me lírios, lírios, E rosas também. Mas se não tens lírios Nem rosas a dar-me, Tem vontade ao menos De me dar os lírios E também as rosas. B...

— Álvaro de Campos

POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA

POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA I Dá-me lírios, lírios, E rosas também. Mas se não tens lírios Nem rosas a dar-me, Tem vontade ao menos De me dar os lírios E também as rosas. Basta-me a vontade, Que tens, se a tiveres, De me dar os lírios E as rosas também, E terei os lírios — Os melhores lírios — E as melhores rosas Sem receber nada. A não ser a prenda Da tua vontade De me dares lírios E rosas também. II Usas um vestido Que é uma lembrança Para o meu coração. Usou-o outrora Alguém que me ficou Lembrada sem vista. Tudo na vida Se faz por recordações. Ama-se por memória. Certa mulher faz-nos ternura Por um gesto que lembra a nossa mãe. Certa rapariga faz-nos alegria Por falar como a nossa irmã. Certa criança arranca-nos da desatenção Porque amámos uma mulher parecida com ela Quando éramos jovens e não lhe falávamos. Tudo é assim, mais ou menos, O coração anda aos trambulhões. Viver é desencontrar-se consigo mesmo. No fim de tudo, se tiver sono, dormirei. Mas gostava de te encontrar e que falássemos. Estou certo que simpatizaríamos um com o outro. Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento Em que pensei que nos poderíamos encontrar. Guardo tudo, (Guardo as cartas que me escrevem, Guardo até as cartas que não me escrevem — Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira, E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair Através dele até mim! Enfim, tudo pode ser... És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis — E a minha visão de ti explode literariamente, E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior, Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto. Boa noite na Austrália!
Mil-Frases Mil-Frases · há 3 anos
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Álvaro de Campos
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O Poeta Álvaro de...
Este poema de Álvaro de Campos, intitulado "Poema de Canção sobre a Esperança", é uma expressão lírica que aborda a temática da esperança e do amor. O poeta pede lírios e rosas, mas se não os tiverem para lhe dar, ele pede apenas a vontade de os oferecer.

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