Uma imagem com a seguinte frase Como da copa verde uma folha caída

Treme e deriva à flor do arroio fugidio,

Deixa-te assim também derivar pela vida,

Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...


Até que te surpreenda a carne dolorida

Aquela sensação final de eterno frio,

Abre-te à luz do sol que à alegria convida,

E enche-te de canções, ó coração vazio!


A asa do vento esflora as camélias e as rosas.

Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas

O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.


Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,

Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos

E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...


Teresópolis, 1906

À BEIRA D'ÁGUA

D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila

O sol, que no cristal argênteo se refrata,

Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,

Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.


Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,

Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la

A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata

Na avassalante paz da solidão tranqjúila...


Às vezes, a tremer na fraga faiscante,

Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante

Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...


E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,

Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode

De cair como a folha e deixar-me levar...


Teresópolis, 1906

Como da copa verde uma folha caída Treme e deriva à flor do arroio fugidio, Deixa-te assim também derivar pela vida, Que é como um largo, ondeante e misterioso rio... Até que...

— Manuel Bandeira

Voz de Fora

Como da copa verde uma folha caída Treme e deriva à flor do arroio fugidio, Deixa-te assim também derivar pela vida, Que é como um largo, ondeante e misterioso rio... Até que te surpreenda a carne dolorida Aquela sensação final de eterno frio, Abre-te à luz do sol que à alegria convida, E enche-te de canções, ó coração vazio! A asa do vento esflora as camélias e as rosas. Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos. Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas, Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas... Teresópolis, 1906 À BEIRA D'ÁGUA D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila O sol, que no cristal argênteo se refrata, Crepitando na pedra, a cuja borda oscila, Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata. Parece a grave queixa, atroando em torno a mata, Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata Na avassalante paz da solidão tranqjúila... Às vezes, a tremer na fraga faiscante, Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante Abandona-se toda, ansiosa pelo mar... E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode, Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode De cair como a folha e deixar-me levar... Teresópolis, 1906
Mil-Frases Mil-Frases · há 2 anos
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Manuel Bandeira
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A poesia de Bande...
"Voz de Fora" é um poema de Manuel Bandeira que nos convida a nos deixarmos levar pela vida, assim como uma folha que cai e flutua no arroio fugidio. O poema nos lembra da efemeridade da existência e nos encoraja a abrir-nos para a alegria e a luz do sol,

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