Uma imagem com a seguinte frase Noite, melhor que o dia, quem não te ama?

Fil. Elis.


Quando a noturna sombra envolve a terra

E à paz convida o lavrador cansado,

À fresca brisa o seio delicado

A branca flor do embiroçu descerra.


E das límpidas lágrimas que chora

A noite amiga, ela recolhe alguma;

A vida bebe na ligeira bruma,

Até que rompe no horizonte a aurora.


Então, à luz nascente, a flor modesta,

Quando tudo o que vive alma recobra,

Languidamente as suas folhas dobra,

E busca o sono quando tudo é festa,


Suave imagem da alma que suspira

E odeia a turba vã! da alma que sente

Agitar-se-lhe a asa impaciente

E a  novos mundos transportar-se aspira!


Também ela ama as horas silenciosas,

E quando a vida as lutas interrompe,

Ela da carne os duros elos rompe,

E entrega o seio às ilusões viçosas.


É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço,

E o céu azul e os seus milhões de estrelas;

Abrasada de amor, palpita ao vê-las,

E a todas cinge no ideial abraço.


O rosto não encara indiferente,

Nem a traidora mão cândida aperta;

Das mentiras da vida se liberta

E entra no mundo que jamais não mente.


Noite, melhor que o dia, quem não te ama?

Labor ingrato, agitação, fadiga,

Tudo faz esquecer tua asa amiga

Que a alma nos leva onde a ventura a chama.


Ama-te a flor que desabrocha à hora

Em que o último olhar o sol lhe estende,

Vive, embala-se, orvalha-se, rescende,

E as folhas cerra quando rompe a aurora.

Noite, melhor que o dia, quem não te ama? Fil. Elis. Quando a noturna sombra envolve a terra E à paz convida o lavrador cansado, À fresca brisa o seio delicado A branca flor...

— Joaquim Maria Machado de Assis

A Flor do Embiroçu

Noite, melhor que o dia, quem não te ama? Fil. Elis. Quando a noturna sombra envolve a terra E à paz convida o lavrador cansado, À fresca brisa o seio delicado A branca flor do embiroçu descerra. E das límpidas lágrimas que chora A noite amiga, ela recolhe alguma; A vida bebe na ligeira bruma, Até que rompe no horizonte a aurora. Então, à luz nascente, a flor modesta, Quando tudo o que vive alma recobra, Languidamente as suas folhas dobra, E busca o sono quando tudo é festa, Suave imagem da alma que suspira E odeia a turba vã! da alma que sente Agitar-se-lhe a asa impaciente E a novos mundos transportar-se aspira! Também ela ama as horas silenciosas, E quando a vida as lutas interrompe, Ela da carne os duros elos rompe, E entrega o seio às ilusões viçosas. É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço, E o céu azul e os seus milhões de estrelas; Abrasada de amor, palpita ao vê-las, E a todas cinge no ideial abraço. O rosto não encara indiferente, Nem a traidora mão cândida aperta; Das mentiras da vida se liberta E entra no mundo que jamais não mente. Noite, melhor que o dia, quem não te ama? Labor ingrato, agitação, fadiga, Tudo faz esquecer tua asa amiga Que a alma nos leva onde a ventura a chama. Ama-te a flor que desabrocha à hora Em que o último olhar o sol lhe estende, Vive, embala-se, orvalha-se, rescende, E as folhas cerra quando rompe a aurora.
Mil-Frases Mil-Frases · há 2 anos
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Joaquim Maria Machado de Assis
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Este mestre das p...
"A Flor do Embiroçu" é um poema de Joaquim Maria Machado de Assis que celebra a beleza e a tranquilidade da noite. O poema descreve a flor do embiroçu, que desabrocha durante a noite e se fecha ao amanhecer. Através da imagem da flor, o poema expressa a b

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