Uma imagem com a seguinte frase Uma pesada, rude canseira

Toma-me todo. Por mal de mim,

Ela me é cara... De tal maneira,

Que às vezes gosto que seja assim...


É bem verdade que me tortura

Mais do que as dores que já conheço.

E em tais momentos se me afigura

Que estou morrendo... que desfaleço...


Lembrança amarga do meu passado...

Como ela punge! Como ela dói!

Porque hoje o vejo mais desolado,

Mais desgraçado do que ele foi...


Tédios e penas cuja memória

Me era mais leve que a cinza leve,

Pesam-me agora... contam-me a história

Do que a minh'alma quis e não teve...


O ermo infinito do meu desejo

Alonga, amplia cada pesar...

Pesar doentio... Tudo o que vejo

Tem uma tinta crepuscular...


Faço em segredo canções mais tristes

E mais ingênuas que as de Fortúnio:

Canções ingênuas que nunca ouvistes,

Volúpia obscura deste infortúnio...


Às vezes volvo, por esquecê-la,

À vista súplice em derredor.

Mas tenho medo de que sem ela

A desventura seja maior...


Sem pensamentos e sem cuidados,

Minh'alma tímida e pervertida,

Queda-se de olhos desencantados

Para o sagrado labor da vida...


Teresópolis, 1912

Uma pesada, rude canseira Toma-me todo. Por mal de mim, Ela me é cara... De tal maneira, Que às vezes gosto que seja assim... É bem verdade que me tortura Mais do que as dore...

— Manuel Bandeira

Desalento

Uma pesada, rude canseira Toma-me todo. Por mal de mim, Ela me é cara... De tal maneira, Que às vezes gosto que seja assim... É bem verdade que me tortura Mais do que as dores que já conheço. E em tais momentos se me afigura Que estou morrendo... que desfaleço... Lembrança amarga do meu passado... Como ela punge! Como ela dói! Porque hoje o vejo mais desolado, Mais desgraçado do que ele foi... Tédios e penas cuja memória Me era mais leve que a cinza leve, Pesam-me agora... contam-me a história Do que a minh'alma quis e não teve... O ermo infinito do meu desejo Alonga, amplia cada pesar... Pesar doentio... Tudo o que vejo Tem uma tinta crepuscular... Faço em segredo canções mais tristes E mais ingênuas que as de Fortúnio: Canções ingênuas que nunca ouvistes, Volúpia obscura deste infortúnio... Às vezes volvo, por esquecê-la, À vista súplice em derredor. Mas tenho medo de que sem ela A desventura seja maior... Sem pensamentos e sem cuidados, Minh'alma tímida e pervertida, Queda-se de olhos desencantados Para o sagrado labor da vida... Teresópolis, 1912
Mil-Frases Mil-Frases · há 2 anos
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Manuel Bandeira
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A poesia de Bande...
"Desalento" é um poema melancólico e introspectivo de Manuel Bandeira. O poeta expressa uma profunda tristeza e desespero, descrevendo a sensação de cansaço e dor que o consome. A lembrança amarga do passado e a falta do que sua alma desejava são temas re

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